Seu nome é Jesus Cristo e passa fome

Quando se aproxima a grande festa da eucaristia, em comunhão com a Igreja e com todas as nossas comunidades, vamos celebrar a Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Jesus. É uma festa de ação de graças pelo memorial permanente do corpo que Jesus doou e do sangue que ele derramou por nós.

Fazer memória é mais que recordar, é experimentar a entrega de vida do Senhor a toda humanidade no hoje de nossa história. Esta entrega também acontece através de todas as pessoas, que motivadas pela fé, conduzidas pelo Espírito e obedientes ao Pai, também doam seu corpo e sangue, ofertam sua vida a serviço de um projeto maior que é o Reino de Deus, acontecendo em pequenos e grandes eventos.

Continua a ser “um derramamento de sangue e lágrimas”, porque ainda hoje o Projeto de Deus encontra resistência. O esforço para se construir uma convivência humana alicerçada no amor, na justiça e na misericórdia exige conversão pessoal permanente de cada pessoa. Supõe mudanças nas estruturas de nossas instituições e de toda sociedade contaminadas pelos vírus da ambição e da vaidade.

E ainda, o Senhor que fez aliança com o povo de Israel, e em Jesus com toda a humanidade, continua a ser fiel. É uma aliança, um pacto indissolúvel. Deus é fiel, mesmo quando seu povo é infiel. Sendo que a maior expressão dessa fidelidade é o próprio Filho, que vindo ao nosso encontro nos propõe o Reino de Deus, e por esse projeto morre na cruz.

Uma proposta que inclui o confronto com “mundo”, com uma sociedade, como era aquela na qual Jesus viveu, e infelizmente como continua sendo, também hoje, nos nossos dias: submissa aos interesses de uns poucos poderosos, uma sociedade que insiste em perpetuar a escravidão e a opressão sobre a maioria de nosso povo. Numa linguagem escravocrata, uma sociedade onde ainda existe uma “casa grande” é habitada por um pequeníssimo número de ricos e riquíssimos que vive às custas de uma imensa “senzala” explorada, excluída e, em muitos casos descartada.

O corpo doado e o sangue derramado de Jesus são a consequência de sua fidelidade ao Pai e ao seu projeto de uma sociedade justa para todos, especialmente para os pobres. Desta forma, reafirmamos que as mesas litúrgicas da Palavra e do Pão devem nos levar às mesas cotidianas dos pobres, muitas vezes vazias de pão, de respeito, de dignidade.

É não separar a fé da vida. Pois, fé e vida devem ser sempre uma totalidade de nosso seguimento de Jesus Cristo. Ou seja, uma vida de união a Cristo e aos irmãos desfigurados. Porque, como diz a música: “seu nome é Jesus Cristo e passa fome”.

Então, celebrar a eucaristia é trazer para o nosso presente o Senhor que não guardou nada para si, mas entregou sua vida para que tivéssemos vida em plenitude. “Isto é meu corpo que é entregue”; “isto é meu sangue que é derramado por todos”. Uma oferta de Vida, para que a humanidade tenha vida plena. Vida com dignidade para este tempo e principalmente para a eternidade. E ao final escutamos as palavras: “fazei isto em memória de mim”.

Mas o que é mesmo fazer memória da ceia pascal de Jesus? Certamente é muito mais que repetir, ritos, gestos e palavras litúrgicos. É assumir em nossa vida a vida missionária e generosa de Cristo. É adorar o Cristo no mistério eucarístico, mas também é tornar nossa vida grão de trigo moído que sacia a fome de todos os famintos. É ser uva amassada que sacia a sede de todos os sedentos. O que equivale a dizer que adorar o Cristo na eucaristia e recebê-lo em alimento divino, é assumir o compromisso de construir uma convivência em que ninguém seja impedido de viver com dignidade. Ou seja, ter acesso aos direitos fundamentais, como trabalho, moradia, saúde, educação, segurança, liberdade…

Ainda hoje Jesus continua sendo crucificado no corpo de homens e mulheres de todas as idades, quando estes direitos são negados. Um escândalo que evidencia o egoísmo das classes dirigentes de nossas cidades e nações. Estes que tiram a vida de nosso povo, continuam crucificando Cristo nos calvários de nossos tempos. Mas o escândalo torna-se mais gritante quando estes frequentam cultos e mesas eucarísticas de nossas igrejas. Entretanto, se você ou eu nada fizer para transformar a morte em vida, também somos hipócritas neste mundo tão religioso, mas tão injusto e desigual.

Que o Cristo doador de vida e confirmado pelo Pai na ressurreição seja sempre nosso modelo de vida eucarística.

 

Padre João Marcos Moreira
Coordenador Diocesano de Pastoral