De cima dos telhados

A comunicação do mundo sempre esteve em mudança. Comunicar-se é uma experiência humana dinâmica e criativa. Mas nos últimos 60 anos mudou drasticamente. Um mundo urgente a criou e ela criou um mundo urgente. O depois que vinha lento cedeu lugar ao agora-já. Em menos de trinta segundos, alguém daqui Brasil pode falar com a China em som claro e definido. Em menos de um minuto as imagens vivas de um terremoto chegam á nossa casa. Sabemos muito mais do que sabíamos, embora isso não signifique que tenhamos mais cultura, ou assimilemos as noticias que nos chegam na hora com melhor aproveitamento que os humanos de ontem. De que nos adiantaria ver passar à nossa frente um trem carregado de laranjas se não nos interessa nem adquirir, nem extrair nem beber o seu suco?


Bilhões estão gritando cada dia mais alto de cima dos telhados, e são tantas as imagens e as vozes, que o mundo perdeu a capacidade de ordená-los. A comunicação moderna parece água abundante, mas desperdiçada porque poucos a armazenam. Nem há como armazená-la tal o seu fluxo.

Como rios caudalosos que deságuam no mar, sem que se aproveitem as suas águas, assim acontece com o volume de informação que nos vem pela mídia moderna. O desperdício é colossal. Lembremos ainda que muitas águas são poluídas ao longo do caminho. Também o conteúdo das mensagens artísticas, políticas e religiosas. Há muita água cristalina a nos descer do alto, mas até mesmo elas começam a ser poluídas.

A comunicação humana já causava impacto, mas nos últimos 60 anos aconteceu um impacto maior com o aperfeiçoamento dos meios de comunicação como jornais, revistas, jornais e rádios, e com o advento e a disseminação da televisão, do telefone sem fio e da Internet. Os nascidos até 1970 não podiam imaginar-se de celular na mão e de e-mail e site a seu dispor. Muito menos imaginariam que seus filhos falariam como o mundo inteiro, aconchegados na poltrona da mesa do seu quarto. Quem ontem apenas recebia mensagens, agora as envia para qualquer lugar do mundo. Bilhões, de apenas receptores, tornaram-se emissores.

Diariamente milhões de pessoas, e a maioria delas se diz crente, comunicam suas idéias e sua fé e fazem questão de ouvir a comunicação dos outros. Até trinta ou quarenta anos atrás as igrejas tinham apenas a força do púlpito ou de algum periódico impresso a linotipo para chegar aos fiéis. Eventualmente havia alguma emissora de rádio. Hoje, em milhares de programas ou emissoras pagas pelo dízimo ou pela contribuição dos fiéis o púlpito se ampliou e custa muito mais caro mantê-lo. Deve valer a pena porque, sobretudo as igrejas pentecostais investem pesadamente em novos templos para onde vão os fiéis chamados através da mídia deles. Novos templos, novas mídias e novas antenas. Se ontem o púlpito levava ás antenas, hoje as antenas levam ao púlpito. O pregador que foi do púlpito para as antenas tem hoje mais gente a ouvi-lo no púlpito

Tudo certo e tudo muito justo? Não, porque muitos fizeram e continuam fazendo pesadas concessões ao mundo e ao marketing da fé para se manterem nas ondas da mídia que costumam ser pesadas e agitadas: católicos e pentecostais igualmente. Há pregadores anunciando hoje de cima dos telhados para quem a mídia é o novo templo e o novo lugar da palavra. Ela vem primeiro e os templos em segundo. Mas há os outros para quem o templo, a presença física no meio do povo diz mais do que a presença midiática, por mais útil e necessária que ela seja. Pregam a Igreja-comunidade mais do que a Igreja-virtual.

Trocaremos o púlpito pelas antenas ou saberemos usar os dois púlpitos, com prioridade para aquele mediante o qual fiéis e pregadores se falam e se vêem olhos nos olhos? No momento as igrejas estão ou encantadas ou perplexas. Ou mergulharam demais nas antenas e ergueram casas e templos colossais, criando a Igreja e o pregador que se mostram até á exaustão da super-exposição, ou se retraíram diante do risco de idolatria que há em cada super-exaltação do pregador ou da igreja que ele anuncia. A mídia é transbordante, posto que vai aonde não prevemos. Por isso mesmo pode se tornar invasora. O invasor pode até conseguir adeptos, mas corre o risco de se fazer malquisto exatamente porque invadiu e gritou alto demais, além de se propor como mais eleito, mas escolhido e mais santo.

Estamos diante da espada de dois gumes. Quem não sabe brandi-la, não a desembainhe! Não se brinca de mídia, muito menos de anunciar uma Palavra que mal conhecemos, simplesmente porque não a estudamos e não a lemos. E isso tem acontecido com muitos pregadores que subiram naquele telhado. Repetem-se à exaustão porque continuam sem ter o que falar. É o fenômeno do pregador que não lê. Imagine um engenheiro e um médico que fizessem o mesmo.

Pe. Zezinho, scj