A liquidez no cotidiano da contemporaneidade

A sociedade do novo milênio está passando por muitas mudanças. Diferentemente de outras épocas, essas mudanças têm alcance global, afetando o mundo inteiro. Fator determinante dessas transformações é a ciência e a tecnologia, com sua capacidade de manipular a própria vida dos seres vivos, e com a capacidade, também, de criar uma rede de comunicações de alcance mundial, de interação em tempo real, apesar das distâncias geográficas.

Nesse novo contexto social, a vida do ser humano e sua realidade se tornaram complexas e fragmentadas. A falta de informação só se resolve com mais informação, gerando e dando à luz, tantas vezes e contraditoriamente, a incomunicação e a incompreensão.

Essa sociedade, em constante mudança, é retratada pelo sociólogo polonês, Zygmunt Bauman, com a metáfora da “fluidez”.
Ele entendeque a sociedade de hoje é líquido-moderna. Nesta, as realizações individuais podem mudar num piscar de olhos. Tudo envelhece rapidamente. A inconstância criou raízes profundas. Ou você se moderniza ou perece. Modernizar-se é viver no presente e pelo presente. É obter satisfação, o máximo possível. Velocidade, e não duração, é o que importa. Com a velocidade certa, pode-se consumir toda a eternidade no presente, sem ter que esperar a continuação das experiências numa vida futura. O caminho é comprimir a eternidade no hoje da história de modo a poder ajustá-la à duração de uma existência individual. A incerteza de uma vida mortal em um universo imortal foi finalmente resolvida: Agora é possível parar de se preocupar com as coisas eternas sem perder as maravilhas da eternidade. Com efeito, ao longo de uma vida mortal pode-se extrair tudo aquilo que a eternidade poderia oferecer.

Na modernidade líquida, a economia gira em torno de objetos descartáveis ou de envelhecimento rápido. Há o desprezo pelo “longo prazo” e pela “totalidade” e sua substituição pelos valores da gratificação instantânea e da felicidade individual. Essa sociedade de consumo tem, por base, a premissa de satisfazer os desejos humanos de uma forma que nenhuma sociedade do passado pôde realizar ou sonhar. A promessa de satisfação, no entanto, só permanecerá sedutora enquanto o desejo continuar irrealizado; o que é mais importante, enquanto houver uma suspeita de que o desejo não foi plena e totalmente satisfeito. A não-satisfação dos desejos e a crença firme e eterna de que cada ato visando a satisfazê-los deixa muito a desejar e pode ser aperfeiçoado — são esses os volantes da economia que tem por alvo o consumidor. Por isso, os que navegam na modernidade líquida precisam tornar permanente a insatisfação no coração das pessoas. Uma forma de causar esse efeito é depreciar e desvalorizar os produtos de consumo, logo depois de terem sido alçados ao universo dos desejos do consumidor. Uma outra forma, ainda mais eficaz, é o método de satisfazer toda necessidade, desejo ou vontade, de uma forma que não pode deixar de provocar novas necessidades, desejos e vontades. O que começa com necessidade deve terminar como compulsão ou vício, gerando assim a “síndrome consumista”. Essa síndrome degrada os prazeres duradouros e promove a transitoriedade. Mais importante que o progresso e o futuro é a busca do prazer pelo prazer. Busca-se, na modernidade líquida, relacionamentos “de bolso”, de que se podem dispor quando se tem o desejo ou deixá-los guardados quando não forem necessários. Crescem as relações “virtuais” nas quais homem e mulher estão “conectados”, mas cada qual pode deletar o outro na hora que bem quiser. Apaixonam-se e desapaixonam-se com facilidade. Quem deseja quer consumir, absorver, devorar, ingerir, digerir, aniquilar.

O pensamento de Bauman revela o despertar de um novo milênio em crise. Os alicerces, abalados pela liquidez da modernidade, evocam uma mudança de paradigma. Se, nos séculos 19 e 20, o mundo foi dominado pelo racionalismo, parece que a nova onda aponta para a fragilidade, a velocidade, a superficialidade, o esvaziamento de sentido. Como comunicar a alegria do Evangelho nessa sociedade tão frágil? Como anunciadores da Boa Nova de Jesus Cristo, temos um caminho árduo a percorrer. Precisamos fortalecer nossos laços de amor, ouvir a voz de Jesus — Caminho, Verdade e Vida, colocando em prática os seus ensinamentos. Assim, conseguiremos ser comunicadores da paz nessa sociedade líquido-moderna.

Pe. Agnaldo José
Assessor da Pastoral da Comunicação
ESCOLA DIOCESANA DE COMUNICAÇÃO