A música, instrumento de comunicação com Deus

A música é um presente do Criador ao homem. Por meio dela, podemos entrar em comunhão com Deus. Todos os seres vivos cantam um hino de louvor ao Senhor pela beleza da vida. Do mesmo modo, a Igreja, comunidade dos filhos de Deus, entoa um cântico novo pelas maravilhas que ele opera na História.

Em todas as suas celebrações a música torna-se canal de comunicação entre Deus e os homens, porque “a Liturgia é o cume para o qual tende a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, a fonte donde emana a sua força” (SC 10). A finalidade de toda ação litúrgica é a glória a Deus e a santificação dos fiéis; por isso “a Igreja que em todos os séculos cantou e canta por tudo, canta a glória de Deus como um eco dos anjos a proclamar a glória do mesmo Deus nos céus” (José Prado Flores). Com a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II, os fiéis têm a oportunidade de poderem participar ativamente nas celebrações litúrgicas. É aqui que a música se torna instrumento favorável para que o povo de Deus manifeste seu amor e sua gratidão.

A música religiosa está presente em todos os povos, em todas as culturas, exercendo uma grande influência. No Antigo Testamento, o povo hebreu exaltava o poder, a misericórdia e o amor de Javé, entoando salmos e cânticos acompanhados de instrumentos musicais. Havia sempre um refrão ou uma invocação cantados por toda a comunidade. Esse relacionamento com Deus, por meio da Música, era tão profundo que tocava o coração dos pagãos. Na escravidão babilônica, até os feitores pediam aos hebreus que cantassem seus Cânticos de Sião: “Junto aos canais de Babilônia nos sentamos e choramos, com saudades de Sião. Nos salgueiros de suas margens penduramos nossas harpas. Lá, os que nos exilaram pediam canções, nossos raptores queriam diversão: ‘cantem para nós um canto de Sião!’” (Sl 136,1-3).

Esses salmos e cânticos foram valorizados por Jesus e pelos primeiros cristãos. Na comunidade cristã primitiva a Música ocupava um lugar central na Liturgia. Todas as missas eram cantadas; a Música criava um clima de solenidade e aquela Igreja perseguida sentia-se fortalecida pela graça de Deus. Apesar de ser fundamental para a Liturgia dos primeiros cristãos, a Música religiosa não era organizada. Ela só foi desenvolvida a partir da conversão do Imperador Constantino em 313, quando a Igreja tornou-se livre e o cristianismo passou a ser a religião oficial do Império Romano. Todavia, o auge da organização da Música Cristã aconteceu com a reforma empreendida pelo papa São Gregório Magno (540-604), quando nasceu o Canto “Gregoriano”, modelo da Música Sacra até nossos dias.

A Igreja reconhece o canto gregoriano como próprio da Liturgia Romana. Portanto, em igualdade de condições, ocupa o primeiro lugar nas ações litúrgicas. Disse o Papa Pio XI: “O canto gregoriano é como que a língua da Liturgia. É o órgão natural do qual se serve a Igreja em seu culto. É a língua da Igreja, isto é, o seu meio de expressão mais perfeito, a sua voz”. O canto gregoriano não é só música, mas também espiritualidade, pois é uma oração; como dizia Santo Agostinho: “O canto gregoriano é a linguagem do amor”. Não é só a beleza artística do canto gregoriano que mexe com o coração das pessoas, mas o mergulho em Deus que ele possibilita aos que estão em oração. Achamos a calma, o silêncio e a paz, pois suas melodias são essencialmente caridade.

O nascimento da Música Moderna ocorreu por volta do ano 1000, quando um monge beneditino, Guido d’Arezzo, inventou a pauta musical e as notas. Posteriormente apareceram as Laudes Populares (derivadas do Canto Gregoriano) e a Música Polifônica ou de várias vozes, tendo como grande expoente Pedro Luiz de Palestrina. No século XX que a música cristã recebeu uma reforma. Em 1903, surge o “Código Jurídico da Música Sacra”, documento elaborado por Pio X, no qual dava orientações a respeito dos gêneros da música religiosa, dos compositores e dos cantores, do órgão e instrumentos musicais. Contribuíram também para o desenvolvimento da Música Sacra os papas Pio XII, João XXIII e Paulo VI (este incentivou a incorporação das tradições populares à Liturgia).

A música nos leva a um profundo encontro com a Santíssima Trindade, faz-nos entrar em comunhão com os anjos e santos, aproxima-nos de nossos irmãos e irmãs e fortalece nossa vida espiritual na busca pela santidade. Ela também é comunicação!
Através dela, anunciamos a Alegria do Evangelho a tantos corações sofridos, sem esperança. Que o Senhor abençoe todos os músicos, cantores, salmistas, em sua bela e difícil missão!

 

Pe. Agnaldo José dos Santos
Assessor da Pastoral da Comunicação