Padre Theodor Amstad, pioneiro do cooperativismo de crédito brasileiro

Poucos sabem, mas a implantação do cooperativismo de crédito no Brasil se deve a um padre suíço, que aportou em nosso país em 1885, mais precisamente no Rio Grande do Sul, procedente da Inglaterra, após ter concluído seus estudos teológicos.
Nascido em 9 de novembro de 1851, o Padre Theodor Amstad foi o pioneiro na articulação e no desenvolvimento dos micro e pequenos agentes de produção rural, industrial e de serviços, especialmente nos municípios do Vale do Rio dos Sinos e do Vale do Rio Caí, onde atuou de 1885 a 1905, e tinha como sede a paróquia de São Sebastião do Caí, que atendia às comunidades de São Salvador/Tupandi, Pareci Novo, Bom Princípio, Santo Inácio da Feliz, Nova Petrópolis, Caxias do Sul e Cima da Serra, atual São Francisco de Paula.
Em 1902, mais precisamente no dia 28 de dezembro, juntamente com um grupo de produtores rurais familiares, fundou em Linha Imperial, então município do Caí e que depois viria a se transformar em Nova Petrópolis/RS, a primeira cooperativa de crédito do Brasil e da América Latina, atualmente denominada de Sicredi Pioneira.
Assim se inicia a trajetória trilhada pelo Sicredi e tudo o que conquistou e constituiu em mais de um século de história a partir de sua criação, construído a partir de um modelo alternativo de organização econômica e conquistando gerações de seguidores, mostrando que os propósitos dos pioneiros podem ser aplicados em qualquer época e em favor de um empreendimento coletivo.
Funcionando ininterruptamente até hoje, a cooperativa de crédito já acumulando uma experiência de 116 anos a serviço dos pequenos poupadores e prestamistas, que geralmente não tem acesso aos bancos convencionais. Esta cooperativa pioneira, junto com outras sete cooperativas de crédito que sobreviveram às medidas oficiais promulgadas em 1966, passaram a ser as inspiradoras do modelo que, em 1980, se reestruturou como o Sistema Sicredi, que rapidamente se expandiu, inclusive criando um banco próprio, localizado em Porto Alegre/RS.
Hoje, amplamente difundido por quase todo o território nacional, conta com 3,7 milhões de associados, os quais exercem um papel de dono do negócio, o Sicredi possui cerca de 1.500 agências e oferece mais de 300 produtos e serviços financeiros.
Ainda no período de 1905 a 1923, o Padre Theodor Amstad atendia pastoralmente na região do vale do Rio Taquari, quando sofreu uma queda de cavalo, com sequelas na coluna que o obrigaram, desde então, a andar em cadeira de rodas.
Nestes 38 anos de atividades pastorais e sociais diretas, segundo depoimentos da época, percorreu cerca de 80 mil km no lombo da mula (em média, cerca de 40 km por semana). Mas, devido ao acidente, foi transferido para uma casa dos jesuítas em São Leopoldo, onde permaneceu até sua morte em 1938.
Entretanto, com seus escritos e por suas múltiplas correspondências, continuou acompanhando as 13 cooperativas que ajudou a fundar diretamente e a própria Sociedade União Popular (Volksverein), da qual era o secretário.
Como sacerdote católico, desenvolveu uma benemérita ação pastoral, manifestada em meritórias iniciativas de cunho apostólico e social, destacando-se pelo pioneirismo em diversas atividades. Teve capital importância junto com lideranças católicas e evangélicas na criação da Primeira Associação de Agricultores do Rio Grande do Sul, ainda em 1900, na então Santa Catarina da Feliz.
Pioneiro na difusão do cooperativismo merece menção especial sua histórica plataforma do Movimento Cooperativo enunciada no dia 25 de fevereiro de 1900, quando proferiu, durante o ‘III Congresso de Agricultores do RS’, realizado na cidade de Feliz, célebre conferência, em que participaram cerca de cinco mil pessoas, quando, então, denunciou “a dependência econômica do Brasil, a nova escravatura instalada no país, a exploração dos agricultores, devido os baixos preços pagos aos produtos agrícolas, ameaça de aumento da dívida externa, exportar mais e importar menos e apelo à União a proposta de organização das cooperativas”.
O Padre Amstad também trabalhou intensamente no desenvolvimento do ecumenismo. Ainda foi precursor dos direitos das mulheres quando em 1912 lutou de forma inovadora, pela participação feminina em associações, como na própria Associação Sociedade União Popular. Destacou-se na comunicação social, com a participação importante em diversas publicações e atuou como ecologista. Nessa área, foi o precursor da valorização dos compostos orgânicos para a refertilização dos solos agrícolas.
Padre Teodoro Amstad faleceu aos 87 anos, em 8 de novembro de 1938, em São Leopoldo, deixando na esteira de sua vida muitas obras e iniciativas de relevante impacto social e comunitário, sempre propondo o aprendizado, o protagonismo e o crescimento na solidariedade e na cooperação.

Texto publicado no Jornal a Voz da Diocese