Cardeal Angelo Becciu na Beatificação destaca para que cresçamos no espírito missionário

Após uma semana da Beatificação do Beato Pe. Donizetti Tavares de Lima, as palavras do Cardeal Giovanni Angelo Becciu, prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, ecoam para que a comunidade diocesana cresça no espírito missionário.

Confira as palavras da Homilia do Cardeal Angelo Becciu, durante a celebração da Beatificação do Pe. Donizetti Tavares de Lima:

«Eu sou o bom Pastor. O Bom Pastor dá a vida pelas suas ovelhas» (Jo.10.11)

Caros irmãos e irmãs,

Estas palavras, com as quais Jesus se definiu a si mesmo, se realizaram plenamente quando Ele, obedecendo livremente à vontade do Pai, imolou-se sobre a Cruz, oferecendo a sua vida em sacrifício por todos nós. Cristo é o pastor verdadeiro, que realiza o modelo mais alto de amor pelo seu rebanho. No Beato Donizetti Tavares de Lima brilha a imagem de Cristo Bom Pastor: preocupado por ir à procura da ovelha perdida, de curar a ferida, de tratar da que está doente, apascentando o rebanho segundo a justiça (cfr. Ez. 34,16). Ele realizou um fecundo ministério sacerdotal centrado na oração, no trabalho apostólico, no sofrimento até à doação total de si mesmo.

Vivendo num período complexo da história do Brasil, este zeloso ministro de Deus sobressai como íntegro pastor de almas, que no curso da sua vida sacerdotal foi guiado pelo amor a Deus e ao próximo. Como pároco, não se poupou no serviço à sua gente: ninguém era excluído da sua atenção, para ele todos os homens enquanto filhos de Deus eram iguais, não olhava para a cor da pele, à cultura, à fé. Profundo conhecedor das Encíclicas sociais de Leão XIII, foi um antecipador dos direitos humanos, contra a desenfreada corrida imposta pelos interesses econômicos, que destroçam a pessoa humana. Demonstrou intrépida coragem na defesa da justiça social, defendeu os pobres, os doentes e os operários e denunciou sem medo os abusos e as irregularidades que aconteciam na sociedade; ao mesmo tempo procurava encontrar um acordo entre os setores da sociedade em conflito. Desafiando contrariedades e perseguições, por vezes colocando em risco a vida, pregava abertamente na defesa dos indigentes como também daqueles vindos da escravidão e pela promoção humana e cristã dos marginalizados. Em todas estas criaturas sofredoras via o rosto de Cristo, por isso batía-se contra toda a espécie de discriminação social e racial.

Na sua intenção de promoção humana e religiosa do povo, dedicou-se com atenção aos problemas da família: fundou a associação da maternidade e infância e numerosas obras assistenciais em particular para os doentes e para os anciãos; procurava prover a todos os casos de pobreza com remédios, alimentos e roupas; construiu um abrigo para os necessitados, um sanatório para os tuberculosos, um posto de revenda de alimentos a baixo custo; levou os jovens a estudar, instruindo quantos não podiam frequentar as escolas públicas por causa da pobreza das suas famílias. Sempre mostrou-se refratário à carreira eclesiástica, ao prestígio e a qualquer vantagem econômica; vivia pobremente e em grande austeridade, todo dedicado ao bem do rebanho de Cristo a ele confiado.

Mas onde encontrou tanta energia para viver uma missão tão vasta e extraordinária? Antes de tudo, na oração. As testemunhas referem que rezava muito, celebrava com fervor, ficava frequentemente em oração diante do Santíssimo Sacramento (Summarium,132). Para além disso, nutria uma devoção filial a Nossa Senhora, venerada como Nossa Senhora Aparecida: não conseguiu ver ultimado o famoso Santuário que surgiu do seu terno amor pela Virgem Maria. Defronte das graças e das ajudas celestes que ele obtinha com a sua oração, amava repetir: «eu não sou ninguém, mas posso obter de Deus através de Nossa Senhora» (Summarium,201). A intensa união com Deus não podia deixar de fazer arder o seu coração e de alimentar a sua criatividade para ir de encontro às necessidades pastorais e materiais da sua gente. Foi de fato o amor para com Deus que o induziu a se prodigalizar para com o próximo. Foi a partir da sua intensa vida interior, da sua relação íntima com Jesus que se desencadeou o heroísmo sempre demonstrado no dar-se aos irmãos, também aceitando as perseguições para defender o direito e a justiça.

A esperança no prêmio eterno, reservado aos trabalhadores da justiça e da paz, estava de tal modo radicada no seu ânimo que o tornava preparado para enfrentar as provas quotidianas com calma, serenidade e abandono à divina vontade. Olhando para o novo Beato, nos encontramos diante de uma figura exemplar de sacerdote, completa desde o ponto de vista humano, espiritual e social que se distinguiu no viver em plenitude o Evangelho. Exemplo concreto e vivo de sacerdote zeloso, homem de oração e de ação, que viveu com coerência e determinação a doutrina social da Igreja. Na sua grande humildade ele considerou-se o último dos padres, mas a Igreja agora o coloca sobre o candelabro como modelo para todos, sacerdotes e leigos. Ele encoraja a nós, os pastores de almas, a dedicar a nossa vida totalmente ao ministério, nos tornando voz de quantos não têm voz na sociedade, defendendo os indefesos e apoiando os abandonados da sociedade. Quero convidar os seminaristas que se preparam para o sacerdócio, a descobrir nele o modelo de discernimento vocacional, que os leve a se tornarem luz e sal da terra no contexto do mundo e da sociedade hodierna com os seus desafios.

Padre Donizetti apresenta-se como discípulo de Jesus em constante caminho, constituindo um testemunho integral do homem cristão. Portanto representa um exemplo luminoso de vida evangélica também para os fiéis leigos, chamados a colocar os próprios talentos ao serviço da evangelização; em particular, como lembrou o Concílio Vaticano II, animando com o espírito cristão as realidades temporais (Apostolicam actuositatem, n.4). Trata-se de se empenhar com coragem nos vários âmbitos culturais, sociais e políticos, atuando a Doutrina social da Igreja e portando a mensagem vivificante do Evangelho como uma proposta e uma ótica de colaboração e de diálogo aberto a várias instâncias. Os discípulos de Jesus com humildade mas com alegre convicção, são conscientes de dever contribuir para a construção da cidade do homem, favorecendo a civilização do amor.

O testemunho cristão e sacerdotal do Beato Donizetti é estímulo para enfrentar, à luz da mensagem evangélica e segundo o ensino da Igreja, o hoje da sociedade assinalado por profunda crise social, cultural e moral, que toca o patrimônio dos valores da aldeia global, necessitado da luz do Evangelho. Temos necessidade de sacerdotes que sejam “Evangelho vivo”, animados pelo forte desejo de serem homens totalmente dedicados ao serviço do Reino de Deus e pastores que, como ama repetir o Santo Padre Francisco, tenham o odor das ovelhas, ou seja, que se sintam plenamente envolvidos na vida de fé da própria gente. Isto será possível se sobre o exemplo de Padre Donizetti cada dia encontrarem na oração a fonte do seu ser sacerdotal.

Ao mesmo tempo, pedimos aos leigos que se esforcem para serem protagonistas da vida eclesial em comunhão com os Pastores, conscientes que, como nos lembrou São Paulo na segunda Leitura, ainda que na diversidade dos carismas e ministérios, todos os discípulos de Jesus fazem parte de um único corpo, a Igreja, e cada um pela sua própria parte contribui para a mesma missão (cfr. Rm 12,4-8).

O solene acontecimento da Beatificação de Padre Donizetti Tavares deve ser uma fecunda ocasião de renovação espiritual e de impulso missionário, especialmente para esta Comunidade diocesana. Olhando para o novo Beato, todos os sacerdotes e todas as pessoas consagradas, estou certo, terão motivo para se esforçar a crescer no espírito missionário, trabalhando para que o Evangelho seja anunciado a todos os homens, neste território mas também até aos extremos da terra, se empenhando, como ele, a viver uma relação íntima de amor com Jesus Eucaristia, porque somente por Cristo, com Cristo e em Cristo, podemos colaborar com o cumprimento da salvação. Também vocês, fiéis leigos, especialmente as famílias e os jovens, são enviados a olhar com simpatia para o novo Beato num momento de enfraquecimento dos verdadeiros valores. Olhando para ele,vocês podem perceber o seu claro testemunho de fé com a coerência das escolhas de vida, inspiradas no Evangelho e se tornar sal da terra e ponto de referência para tantos contemporâneos desejosos de verdade e de luz”, o Cardeal encerra pedindo a intercessão e oração do Beato Pe. Donizetti.