SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO: Homilia do Bispo Dom Vilar

SEXTA FEIRA SANTA – A PAIXÃO DO SENHOR
(10 de Abril 2020, Catedral em São João da Boa Vista)

Hoje é o único dia do ano litúrgico sem Missa. E como estamos em Quarentena, também não haverá a distribuição da comunhão, que faria parte do rito de hoje. A Celebração da Paixão começa e termina com um silêncio respeitoso e se compõe de quatro partes: 1) Liturgia da Palavra; 2) Oração Universal; 3) Adoração da Cruz; 4) Rito da Comunhão.

  1. A Liturgia da Palavra traz uma síntese da vida e ação de Jesus: Ele é o Servo Sofredor que carrega os pecados da humanidade (Is52,13-53,12); Jesus é o Rei Universal que dá a vida (Jo18,1-19,42); Jesus é o Único Sacerdote e Mediador entre Deus e a humanidade (Hb4,14-16,5,7-9).
  2. A Oração universal: mostra a abertura universal da comunidade, consciente de que a Salvação de Cristo é oferecida a todos a humanidade.
  3. A Adoração da Cruz: Passando da morte dolorosa e humilhante, à sua Ressurreição gloriosa, Jesus celebrou a Páscoa. Honrando a Cruz, adoramos e agradecemos a Jesus Nosso Senhor que se fez Servo por Amor.
  4. O Rito da Comunhão: Hoje não há ofertas a apresentar ao Pai, não se renova no Altar o Sacrifício da Cruz, mas se faz a Comunhão com o pão eucarístico consagrado na véspera. E, pela Quarentena, os fiéis que estão em casa são convidados a fazer a sua comunhão espiritual.

– Agora, meditemos a Paixão do Senhor no Evangelho de João: É a entrada no mistério pascal que celebramos. Jesus morre na hora em que, no templo, se imolam os cordeiros destinados à celebração da Páscoa; sua imolação é um Sacrifício Real realizado uma vez por todas, porque a vítima espiritual tornou inúteis as vítimas materiais do templo. João alimenta a fé dos discípulos dando sentido aos fatos. Jesus era a Luz, mas os homens o rejeitaram, amando mais as trevas do que a Luz. Vejamos:

  1. A oposição entre luz e trevas parte de Jesus, a Luz, que se apresenta decidido e ciente de tudo; aqui não se fala de sua agonia no horto, sua luta interior; fala-se das trevas, dos maus que agem na escuridão da noite.
  2. O velho Anás, que controlava a atividade do templo, dirige aqui o processo contra Jesus, personificando as trevas que não suportam a Luz que expulsa os vendilhões do templo.
  3. Pilatos é peça chave do processo: os judeus estão fora; Jesus está dentro; Pilatos está no meio. As trevas desta noite começam com Judas, ao sair do cenáculo, com a traição, a prisão, a condenação, e as negações, até despertar do novo dia: ao meio dia, o sol brilha intensamente, e Pilatos proclama solenemente a Realeza de Jesus: Eis o vosso Rei! Jesus fica em silêncio, e aguarda a decisão e escolha de cada um dos presentes.
  4. A Crucificação e a Morte: A Inscrição sobre a Cruz confirma a Realeza de Jesus, de modo oficial, pela autoridade, em várias línguas, que indicam que seu Reino é universal. As Vestes que indicam a pessoa, representada pela roupa, são divididas em 4 partes, número 4 que expressa os 4 pontos cardeais, dando valor universal ao seu Sacrifício. A Mãe é confiada ao Discípulo por Jesus, para que a mulher acolha como filho todo discípulo que segue o Mestre até a Cruz. E Jesus convida a Comunidade a ser filha do Povo do qual Cristo nasceu. A Morte de Jesus é suave e serena, sem fenômenos estrondosos. Cai o véu que impedia ver o rosto de Deus e se contempla Jesus na Cruz, pobre, fraco, que se doa à humanidade. Ao dizer ‘Tenho sede’, lembra o a água viva prometida à Samaritana. Na Morte entrega o Espírito, seu Dom à Igreja. E de seu lado aberto, sai a Igreja, como da costela de Adão saiu Eva, o sangue e água, são a vida da Igreja, os Sacramentos do Batismo e da Eucaristia.
  5. Para a sepultura, José de Arimatéia com Nicodemos, aquele que foi ter com Jesus de noite, traz perfumes abundantes usados para as festas nupciais. Mais que um túmulo, entende-se aqui a preparação do leito nupcial para o esposo. O Evangelho aqui não descreve os tormentos atrozes de Jesus, para nos comover, mas quer mostrar o seu amor imenso. Esta Imagem de João, pois, é de festa das núpcias: a comunidade abraça seu esposo e se sente muito amada por ele. Começa assim no Calvário a festa das núpcias do Cordeiro que terá sua realização plena no céu. Esta será a conclusão da história de amor entre Deus e a humanidade.

Assim, podemos ver também a quarentena que passamos: mais que dor e castigo, é bom ver tudo como ocasião de estar mais com o Senhor, Esposo Divino, tantas vezes esquecido, embora tão próximo de nós. Por isso, o silêncio da Sexta-feira e do Sábado santos, mais que um velório, se torne tempo de oração, respeito e gratidão ao Esposo Divino que dá a vida por amor de nós!

Dom Antonio Emidio Vilar, sdb
Bispo Diocesano