Reflexão: Depois do vendaval

           Os dias que estamos vivendo nesse clima de suspense interminável me lembra a cena bíblica da passagem do mar vermelho conforme narra o livro do Êxodo, quando o povo fugia do exercito do faraó e tem à sua frente o mar. O que fazer? Voltar e ser escravo de novo, nem pensar! Ir adiante e mergulhar sem saber se vai “dar pé”? A segunda opção foi a mais acertada, o povo caminhou “a pé enxuto” e encontrou um horizonte novo para sua vida.
            Penso que atravessar o mar, depois o deserto não terá sido fácil para pessoas que, apesar de serem escravas, estavam numa chamada “zona de conforto” com alimento e moradia; semelhantes a nós antes de aparecer o covid.  Sabíamos da necessidade de normas higiênicas mas não levávamos muito a sério; nos apresentávamos como amigos do planeta e do meio ambiente ao mesmo tempo em que aumentávamos os índices de poluição; defendíamos a substituição dos copos e canudinhos de plásticos e  não nos importávamos com a fumaça dos cigarros; queríamos mais saúde e saudávamos os estádios “padrão Fifa”! De repente, depois do carnaval fomos surpreendidos por um tsunami de proporções mundiais que nos fez parar, literalmente, parar com tudo o que vínhamos fazendo. O corona vírus apareceu matando gente e assustando países do primeiro até o quarto mundo e as autoridades se batendo como doidos infantes sem saber o que fazer. Tivemos que parar, nos isolar, fechar em nossas casas e reaprender a viver. Nos obrigamos a reaprender a conviver, a enxergar melhor os que vivem conosco, os que dependem de nós, os que são mais frágeis, carentes e que todos somos iguais, se não perante a lei, sim diante o vírus.
            Entramos numa “Quaresma” interessante de mais e significativo jejum, silêncio, oração, escuta sincera de Deus que fala conosco. Pudemos ver o que realmente é importante para nós, o que realmente necessitamos para ser feliz e quanta coisa desnecessária, quantos artigos importados sem serventia adquirimos a toa.  Neste tempo reaprendemos a colaborar mais em casa, descobrimos como faz bem ir à missa e sentimos na carne a dor dos que durante meses sofrem esperando o dia de poder ir à missa. Sentimos de novo “saudade” dos nossos queridos amigos e parentes… E ganhamos uma nova lente para ver quem são as pessoas que fazem a diferença em nossos dias. Aprendemos que professor, medico, enfermeiro, motorista de ambulância são mais importantes que artistas; escolas, hospitais e pronto socorro precisam de mais cuidados que as arenas e campeonatos; aprendemos que nossa responsabilidade não é ficar assistindo noticiários sensacionalistas e sim fazer acontecer uma boa notícia. Construir mais ajuda e solidariedade através de atitudes positivas de amor aos semelhantes.
            Depois que tudo isso passar ou começar a melhorar o ambiente em que vivemos, não poderemos descuidar de algumas atividades básicas; não poderemos deixar que a nossa “casa”, nossa cidade, nossas ruas e praças se transformem em um grande latão de lixo; nossos hábitos de higiene deverão progredir sempre mais para não termos de nos isolar e distanciar dos nossos amigos e parentes; aliás, desde sempre ouvimos “tira a mão da boca”!
            Creio, enfim, que deveremos nos aplicar a propor, distribuir compartilhar e praticar boas notícias, novas práticas de correção que não diminuam nem humilhem nossos semelhantes, mas que seja ajuda valorosa na construção de caminhos novos para vivências novas de respeito à vida e à dignidade humanas. Precisaremos ficar mais atentos quanto aos focos de notícias falsas que têm a nítida intenção de alarmar e desencorajar o povo mais simples em suas atividades diárias. Quem sabe possamos criar uma rede de coisas boas, palavras, informações, atividades que nos unam mais e nos fortaleçam nesse tempo de tanta insegurança e confusão. Usemos mais os verbos-atitude confiar, rezar, agradecer, amar, partilhar, cuidar, servir e esperar. Isso tudo entrelaçado com esperança, fé e muito amor.

Pe. João Paulo Ferreira Ielo
Pároco da Paróquia Imaculada Conceição de Mogi Guaçu