DOM ANTONIO EMIDIO VILAR, SDB, PARTILHA SEUS ENCONTROS COM O CLERO NAS FORANIAS DA DIOCESE

“Os sinais dos tempos nos indicam o novo normal como um Kairós e um tempo da graça de Deus.”

A Pastoral Presbiteral da Diocese, neste tempo de pandemia, sem encontros e reuniões por mais de três meses, resolveu reunir o clero só por forania para partilhar as experiências da quarentena… Esta partilha das quatro foranias foi uma riqueza que aqui esboço em poucas palavras. A sensação inicial de medo, dúvida e insegurança foi geral. O isolamento, sem Missa com o povo, levou os padres a se organizarem entre eles para celebrar, partilhar, confraternizar e se ajudar. Os aspectos que destaco da partilha dos padres nas quatro foranias são estes:

Cuidado das finanças: o medo inicial em não ter recursos para a manutenção das paróquias, aos poucos mudou em “surpresa” com a solidariedade, criatividade e promoções. Foi a experiência da “Providência Divina” vivida com o dízimo, as cestas básicas e doações, priorizando o essencial…

Cuidado da saúde: para enfrentar a ansiedade, o stress do isolamento e da solidão, foi proposto cultivar exercícios físicos regulares, exercícios de respiração, hidratação e sono satisfatório.

Cuidado da pessoa, da família e da comunidade: a experiência do que é essencial: voltar à essência da pessoa (do sentido da vida, da vocação e do ministério). O isolamento levou as pessoas a cultivarem mais o silêncio fecundo, a repensarem as relações de modo mais profundo e o chamado a voltar ao primeiro amor, ao primado da oração, Eucaristia, Palavra de Deus, leituras, e do cuidado dos mais pobres… A volta à igreja doméstica, das famílias em suas casas, com mais oração e partilha. Volta à família presbiteral, por meio de uma maior convivência, partilha e ajuda recíproca.

Cuidado do retorno à celebração: esta volta visou estabelecer um ritmo saudável de vida. O protocolo da diocese, para o retorno às Missas, ajudou muito a dar passos mais seguros. Se as Missas sem o povo trouxeram vazio, por outro lado, as transmissões pelas redes sociais, em si frias, revelaram-se novos espaços, meios e recursos, e até novos areópagos para o futuro. A agenda cancelada deu uma sensação de impotência, mas trouxe a consciência de sermos servos inúteis, unida à convicção de que é Deus quem está no comando de tudo e nos abre à leitura dos sinais dos tempos.

O novo normal: é algo que nos remete a uma ruptura estrutural de um pós-guerra. Isto significa que quando a pandemia passar e tudo voltar ao normal, não será o mesmo normal de antes. Será um novo normal. Cabe agora discernir o normal através de escolhas guiadas por um padrão ou modelo de vida, por uma escala de valores que garanta a nossa sobrevivência e uma forma de vida humilde e autêntica, simples e saudável, cientes que não temos o controle de tudo. Normal é o que o ser humano tem em seu instinto de buscar segurança e bem-estar. Mais que aquisição, é algo a ser conquistado sempre, movido pelas pulsões de vida e de morte. A pulsão de morte é própria de quem usa droga, que bebe e dirige, agindo de forma incauta… Isto não é “normal”. É insano! Mas, quando a pessoa cuida da vida e da saúde, e se protege, aí sim, temos a pessoa “normal”, saudável. O novo se opõe ao velho. O novo normal pede mudança do velho costume da rotina agitada para os novos cuidados conosco, com os outros e o ambiente. Ao pedir mudança, o novo nos desinstala de um padrão de vida e nos lança em outro. Isso nos assusta, traz ansiedade, insegurança e medo de perdas. Este novo normal saudável, porém, nos capacita a ter melhores cuidados, visando o essencial, e nele ter segurança e bem-estar.

Enfim, os sinais dos tempos nos indicam o novo normal como um Kairós e um tempo da graça de Deus. Que desta pandemia ou crise, como do “exílio bíblico”, saiamos melhores do que antes.