PERDOAR OS IRMÃOS

Deus nos ama sem medida e nos convida também a amar assim nossos irmãos. A ira e a vingança só trazem destruição. “O desígnio criminoso volta-se contra o seu autor, que não saberá de onde lhe vem o mal. A zombaria e a ofensa são próprias dos orgulhosos; a vingança os espreita como um leão. Aqueles que escarnecem do pecado dos justos serão apanhados no laço, e a dor os consumirá ainda vivos. Cólera e furor são ambos execráveis; o homem pecador os alimenta em si mesmo. Aquele que quer vingar sofrerá a vingança do Senhor, que guardará cuidadosamente os seus pecados. Perdoa ao teu próximo o mal que te fez, e teus pecados serão perdoados quando o pedires. Um homem guarda rancor contra outro homem, e pede a Deus a sua cura! Não tem misericórdia para com o seu semelhante, e roga o perdão dos seus pecados! Ele, que é apenas carne, guarda rancor, e pede a Deus que lhe seja propício! Quem, então, lhe conseguirá o perdão de seus pecados? Lembra-te do teu fim, e põe termo às tuas inimizades, pois a decadência e a morte são uma ameaça para aqueles que transgridem os mandamentos” (Eclo 27.30-28,7). O sábio sabe perdoar e tem compaixão. Para a Sabedoria, quem perdoa o próximo, ao rezar, tem o perdão de Deus. Se não perdoa, não é perdoado. Por isso, a Sabedoria aconselha: Pensa no teu fim e deixa de ter ódio! Olhar para a nosso fim, a morte, nos faz ver que a vida é breve e que não se pode estragá-la com sentimentos que ferem a nós e aos outros. O mundo violento que vinga e que mata, não entende as falhas dos outros, nem sente o amor de Deus! A Sabedoria nos aconselha a buscar o que nos faz felizes, o que nos dá paz e nos faz sentir bem conosco, com Deus e com os outros!

Paulo, escrevendo aos romanos, lembra-nos: “Nenhum de nós vive para si, e ninguém morre para si. Se vivemos, vivemos para o Senhor; se morremos, morremos para o Senhor. Quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor. Para isso é que morreu Cristo e retomou a vida, para ser o Senhor tanto dos mortos como dos vivos.” (Rm 14,7-9). Vivemos e morremos para o Cristo Senhor que nos une. O resto não importa. Ele nos faz Comunidade, lugar de amor e perdão, respeito e aceitação. Não merece condenação quem não pensa igual a nós. A diversidade não fere a unidade. E em nome da fé, não se impõe a uniformidade. Quem se considera santo porque segue ritos e regras, mas se perde em discussões secundárias, esquece o essencial, o amor, esquece que nós vivemos para o Senhor.

“Quantas vezes devo perdoar o meu irmão, quando ele pecar contra mim. Até sete vezes?”, perguntou certa vez Pedro para Jesus. Respondeu Jesus: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. Por isso, o Reino dos Céus é comparado a um rei que quis ajustar contas com seus servos. Quando começou a ajustá-las, trouxeram-lhe um que lhe devia dez mil talentos. Como ele não tinha com que pagar, seu senhor ordenou que fosse vendido, ele, sua mulher, seus filhos e todos os seus bens para pagar a dívida. Este servo, então, prostrou-se por terra diante dele e suplicava-lhe: ‘Dá-me um prazo e eu te pagarei tudo!’. Cheio de compaixão, o senhor o deixou ir embora e perdoou-lhe a dívida. Apenas saiu dali, encontrou um de seus companheiros de serviço que lhe devia cem denários. Agarrou-o na garganta e quase o estrangulou, dizendo: ‘Paga o que me deves!’ O outro caiu-lhe aos pés e pediu-lhe: ‘Dá-me um prazo e eu te pagarei!’. Mas, sem nada querer ouvir, este homem o fez lançar na prisão, até que tivesse pago sua dívida. Vendo isso, os outros servos, profundamente tristes, vieram contar a seu senhor o que se tinha passado. Então, o senhor o chamou e lhe disse: ‘Servo mau, eu te perdoei toda a dívida porque me suplicaste. Não devias também tu compadecer-te de teu companheiro de serviço, como eu tive piedade de ti?’. E o senhor, encolerizado, entregou-o aos algozes, até que pagasse toda a sua dívida. Assim vos tratará meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar a seu irmão, de todo o seu coração.” (Mt 18,21-35). Jesus é questionado: Devo perdoar até sete vezes? Ele responde: Não só sete, mas perdoar sempre, sem limites. Ele conta a história do acerto de contas do senhor com quem não tinha com que pagar a sua grande dívida. Cheio de compaixão, o senhor perdoa-lhe a dívida e lhe dá a liberdade. Mas, este servo perdoado pune o outro que lhe deve pouquinho. Quem viu a cena conta ao senhor. O senhor o chama o servo e lhe diz que, por tê-lo perdoado grande dívida, ele devia perdoar também a pequena dívida. É grande o contraste entre o gesto e o coração do senhor que perdoa infinitamente, e do servo fechado ao perdão do outro, mesmo depois da alegria seu perdão. Todos ficam chocados, e o rei, decepcionado com a atitude do servo, o castiga duramente.

A misericórdia de Deus, perdão sem limites, nos ensina a abrir o nosso coração aos que erram. A lógica de Deus não é a nossa lógica! Ele nos convida a perdoar sempre, seguindo Jesus. A lógica do mundo chama de gente fraca quem perdoa. Na lógica de Deus perdoar é próprio dos fortes que vivem o essencial, renunciam ao orgulho e apostam num mundo de relações novas e verdadeiras. A lógica do mundo é de violência, injustiça e morte. A lógica de Deus é de gestos de amor e partilha, de diálogo e comunhão. Perdoar não é ceder diante de quem magoa e ofende, não é ser indiferente com o que não nos interessa ou que causa dor e morte. Perdoar não é aguentar tudo em silêncio conformista e covarde. Perdoar não é fingir que não vê, nem é ser passivo ou se esconder atrás da injustiça! O cristão odeia o pecado, mas ama o pecador, combate o pecado, mas defende o pecador, não se cala diante do erro, mas não guarda rancor de quem errou. O cristão não desiste de ninguém! O cristão se sente responsável na construção de um mundo novo e melhor, não se omite, mas vai ao encontro, estende a mão, busca o diálogo e sempre dá uma nova oportunidade.


Dom Antonio Emidio Vilar, SDB