DOIS FILHOS DIFERENTES

O mês da Bíblia propôs escutar, viver a Palavra, e nos preparou para a missão, no mês das missões, outubro, de sua padroeira, Santa Teresinha, mês do Rosário e de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil.

Seguir os caminhos do Senhor, fieis à sua Palavra e Aliança, leva à vida: “Dizeis, não é justo o modo de proceder do Senhor. Escutai-me então, israelitas: o meu modo de proceder não é justo? Não será o vosso que é injusto? Quando um justo renunciar à sua justiça para cometer o mal e ele morrer, então é devido ao mal praticado que ele perece. Quando um malvado renuncia ao mal para praticar a justiça e a equidade, ele faz reviver a sua alma. Se ele se corrige e renuncia a todas as suas faltas, certamente viverá e não perecerá” (Ez 18,25-28).

São Paulo convida-nos aos mesmos sentimentos de Cristo que se esvazia da condição divina, assume a condição humana, humilha-se e faz-se obediente até à morte de Cruz: “Se me é possível, pois, alguma consolação em Cristo, algum caridoso estímulo, alguma comu¬nhão no Espírito, alguma ternura e compaixão, completai a minha alegria, permanecendo unidos. Tende um mesmo amor, uma só alma e os mesmos pensamentos. Nada façais por espírito de partido ou vanglória, mas que a humildade vos ensine a considerar os outros superiores a vós mesmos. Cada qual tenha em vista não os seus próprios interesses, e sim os dos outros. Dedicai-vos mutuamente a estima que se deve em Cristo Jesus. Sendo ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens. E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz. Por isso, Deus o exaltou soberanamente e lhe outorgou o nome que está acima de todos os nomes, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho no céu, na terra e nos infernos. E toda língua confesse, para a glória de Deus Pai, que Jesus Cristo é Senhor” (Fl 2,1-11).

No Evangelho, Jesus fala de dois tipos de Sim. O Pai convida seus dois filhos a trabalharem na Vinha. O primeiro diz “Não’” mas depois foi. O segundo diz logo “Sim”, mas depois não foi. Daí a pergunta: Qual dos dois fez a vontade do Pai? É claro que não foi quem disse “Sim” e não foi, mas quem obedeceu e foi. Esse fez a vontade do Pai: “Que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Dirigindo-se ao primeiro, disse-lhe: ‘Meu filho, vai trabalhar hoje na vinha’. Respondeu ele: ‘Não quero’. Mas, em seguida, tocado de arrependimento, foi. Dirigindo-se depois ao outro, disse-lhe a mesma coisa. O filho res¬pondeu: ‘Sim, pai!’. Mas não foi. Qual dos dois fez a vontade do pai? ‘O primeiro’ – responderam-lhe. E Jesus disse-lhes: ‘Em verdade vos digo: os publicanos e as mere¬trizes vos precedem no Reino de Deus! João veio a vós no caminho da justiça e não crestes nele. Os publicanos, porém, e as prostitutas creram nele. E vós, vendo isso, nem fostes tocados de arrependimento para crerdes nele’” (Mt 21,28-32).

Os dois filhos representam dois grupos do tempo de Jesus: justos e pecadores. Os judeus se julgam justos, praticantes da Lei, dizem Sim a Deus pela Aliança, mas rejeitam Cristo, o enviado de Deus: dizem Não ao seu Reino. Foi o modo de viver o Sim à Lei que os levou a dizer Não a Cristo. Os pecadores eram cobradores de impostos e prostitutas, que diziam Não à lei, mas que depois dizem Sim a Jesus, ao Evangelho e ao Reino. Só Mateus narra esta parábola. Ele é cobrador de impostos, visto como pecador público, e depois, discípulo fiel de Cristo.

Esta parábola fala à Igreja, vinha do Senhor na qual somos chamados a trabalhar. Hoje também Deus tem dois filhos: o primeiro diz Sim, no Batismo, mas depois, na vida concreta, diz Não; o segundo diz Não, afastado da vida eclesial, mas, depois, no dia-a-dia, diz Sim a Deus, amando seu irmão e se doando aos outros com obras de caridade. Estes, mesmo não batizados, agem como Filhos de Deus, como diz Jesus: “Nisto conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros como eu vos amei; ou, encontram Jesus no outro: Todas as vezes que fizestes isso a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes” (Mt.25,40).

O católico não diz “Cristo Sim, Igreja Não”. Não há cristão sem Igreja. Cristãos pela graça de Deus, nós recebemos sua graça em Cristo-Igreja, sacramento de salvação. Fonte e sinal da graça de Deus à humanidade, a Igreja é o povo eleito, organizado e unido na comunhão e animação dos apóstolos e seus sucessores. Dizer Sim à Igreja é dizer Sim a Cristo. Não basta dizer Sim com belas palavras, mas sem o coração. Não basta pertencer a um grupo, mas não caminhar junto. É melhor ser cristão sem dizê-lo, do que dizer que é, sem sê-lo. Cabe a nós decidir, ser o primeiro, ou o segundo filho, ser um pouco de cada, ou, melhor, ser um terceiro filho que a parábola não menciona: o filho que diz Sim e vai mesmo!

Somos Igreja Missionária! Somos chamados a trabalhar na vinha, na construção de um mundo mais humano, mais justo e fraterno. Não basta fazer só o que gostamos, o que nos interessa. Ouvir a Palavra é bom, mas vivê-La é que faz a diferença! Felizes os pés que evangelizam. Felizes os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática. Maria é feliz, pois acreditou. Seu Sim foi fiel, da Anunciação até a Cruz. E o Senhor fez maravilhas na Virgem Maria. A Missão nos leva a sair de nós mesmos para ir e anunciar as maravilhas do Senhor!


Dom Antonio Emidio Vilar, SDB