A VINHA DO SENHOR É POVO DE DEUS

O mês da Bíblia nos ajudou a escutar, viver a Palavra, e preparou o mês das missões que começou com Santa Teresinha, sua padroeira. Outubro é o mês do Rosário e de Nossa Senhora Aparecida.

O profeta Isaías ensina-nos que a Vinha de Israel, povo eleito, é figura da Igreja, o novo Povo de Deus: “Eu quero cantar para o meu amigo seu canto de amor a respeito de sua vinha: meu amigo possuía uma vinha em um outeiro fértil. Ele a cavou e tirou dela as pedras; plantou-a de cepas escolhidas. Edificou uma torre no meio, e construiu aí um lagar. E contava com uma colheita de uvas, mas ela só produziu agraço. ‘E agora, habitantes de Jerusalém, e vós, homens de Judá, sede juízes entre mim e minha vinha. Que se poderia fazer por minha vinha, que eu não tenha feito? Por que, quando eu esperava vê-la produzir uvas, só deu agraço? Pois bem, eu vos mostrarei agora o que hei de fazer à minha vinha: eu lhe arrancarei a sebe para que ela sirva de pasto, derrubarei o muro para que seja pisada. Eu a farei devastada; não será podada nem cavada, e nela crescerão apenas sarças e espinhos; vedarei às nuvens derramar chuva sobre ela.’ A vinha do Senhor dos exércitos é a casa de Israel, e os homens de Judá são a planta de sua predileção. Esperei deles a prática da justiça, e eis o sangue derramado; esperei a retidão, e eis os gritos de socorro” (Is 5,1-7).

O Cântico da Vinha, narra a História do amor de Deus e da infidelidade do Povo. Na canção da colheita, Deus Amigo, julga a vinha, seu povo, por sua resposta. O agricultor escolheu o melhor terreno, as mudas e teve todo o cuidado. O seu sonho era colher bons frutos. Mas que decepção: só deu uva azeda. Que mais poderia eu ter feito por minha vinha e não fiz? Do amor passa ao ódio: derruba o muro, permite que os passantes a pisem e os espinhos tomam conta dela. Ele queria frutos de direito, justiça, fidelidade à Aliança e respeito aos Mandamentos. Mas, viu sangue derramado e gritos de horror: viu corrupção e violência, viu ritos solenes, sem aderir a Deus de coração. Daí o castigo: a invasão dos assírios e babilônios destroem a vinha e deportam os israelitas como escravos.

Paulo diz que os frutos da vinha que Deus espera dos cristãos são virtudes concretas: cultivar o que é bom, justo, puro, amável. Assim, a Paz de Deus estará com eles. “Não vos inquieteis com nada! Em todas as circunstâncias apresentai a Deus as vossas preocupações, mediante a oração, as súplicas e a ação de graças. E a paz de Deus, que excede toda a inteligência, haverá de guardar vossos corações e vossos pensamentos, em Cristo Jesus. Além disso, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é nobre, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, tudo o que é virtuoso e louvável, eis o que deve ocupar vossos pensamentos. O que aprendestes, recebestes, ouvistes e observastes em mim, isto praticai, e o Deus da paz estará convosco. Fiquei imensamente contente, no Senhor, porque, finalmente, vi reflorescer o vosso interesse por mim. É verdade que sempre pensáveis nisso, mas vos faltava oportunidade de mostrá-lo. Não é minha penúria que me faz falar. Aprendi a contentar-me com o que tenho.” (Fl 4,6-9).

No Evangelho de Mateus, Jesus fala da Vinha. Um Senhor planta uma vinha com todo cuidado e a confia a vinhateiros. Manda buscar a colheita e vem a surpresa. Não dão frutos, maltratam os enviados, nem respeitam o filho do dono, e até chegam a matá-lo. O Senhor não destrói a Vinha, mas substitui os trabalhadores. “Ouvi outra parábola: ‘Havia um pai de família que plantou uma vinha. Cercou-a com uma sebe, cavou um lagar e edificou uma torre. E, tendo-a arrendado a lavradores, deixou o país. Vindo o tempo da colheita, enviou seus servos aos lavradores para recolher o produto de sua vinha. Mas os lavradores agarraram os servos, feriram um, mataram outro e apedrejaram o terceiro. Enviou outros servos em maior número que os primeiros, e fize¬ram-lhes o mesmo. Enfim, enviou seu próprio filho, dizendo: Hão de respeitar meu filho. Os lavradores, porém, vendo o filho, disseram uns aos outros: Eis o herdeiro! Matemo-lo e teremos a sua herança! Lançaram-lhe as mãos, conduziram-no para fora da vinha e o assassinaram. Pois bem: quando voltar o senhor da vinha, que fará ele àqueles lavradores?’ Responderam-lhe: ‘Mandará matar sem piedade aqueles miseráveis e arrendará sua vinha a outros lavradores que lhe pagarão o produto em seu tempo’. Jesus acrescentou: ‘Nunca lestes nas Escrituras: A pedra rejeitada pelos construtores tornou-se a pedra angular; isto é obra do Senhor, e é admirável aos nossos olhos (Sl 117,22)? Por isso, vos digo: será tirado de vós o Reino de Deus, e será dado a um povo que produzirá os frutos dele’” (Mt 21,33-43).

A parábola é a História da Salvação. Israel recusa o projeto de salvação. A Vinha é o Povo de Deus. O Dono é Deus que teve amor pela vinha. Os vinhateiros são líderes do povo judeu. Os enviados são os profetas e Cristo, morto fora da vinha. A vinha é tirada e confiada a outros que deem os frutos devidos e acolham o Filho enviado. A reação do Povo é tentar prender Jesus, pois percebe que a Parábola fala deles. Os outros somos nós, Igreja. Nossa missão é produzir os frutos que o Senhor espera de nós na colheita. No tempo de Isaías e de Jesus os fiéis eram muito piedosos e zelosos nas práticas religiosas. Deus não se queixou disso, diz Isaías. Deus, o dono da vinha, diz: “Esperei justiça e houve sangue derramado; esperei retidão de conduta e ouço os gritos de socorro de gente que foi explorada e maltratada”. Eis os frutos que Deus quer de nós. Não se trata só de práticas religiosas. Dar frutos é levar ao mundo gestos de amor, partilha, serviço, compreensão e misericórdia… É o Reino que Jesus propõe. Os guardas da vinha até se sentiam Donos. Esse perigo para as comunidades nos faz lembrar que não somos donos, mas administradores. O que nos consola é que Deus nunca desiste de sua obra de amor e salvação! E porque não desiste, diante do fracasso de alguns, Deus recomeça sempre com outros. Cabe a nós buscar produzir os frutos que Deus quer, hoje, como Igreja em saída, empenhada na missão.


Dom Antonio Emidio Vilar, SDB