À SOMBRA DAS ASAS DE DEUS

Na última Missa do ano de 2020, no dia 31 de dezembro, nossa comunidade paroquial, reunida na igreja matriz, cantou a seguinte música, com uma pequena mudança no fim da letra: “Adeus, ano velho! Feliz ano novo! Que tudo se realize no ano que vai nascer: muita paz e alegria para a minha e a sua família!”. Foi um momento de passagem, repleto de simbolismo. Deixávamos para trás tudo o que não tinha sido bom e desejávamos crescer em todas as áreas de nossas vidas. Contudo, quando o primeiro minuto de 2021 chegou, as coisas não mudaram num passe de mágica. Tudo continuou do mesmo jeito como no último minuto do ano que chegara ao fim. A mudança verdadeira acontece somente com muita luta, com a graça de Deus agindo em nós, amando-o acima de todas as coisas, como também os nossos irmãos.

O livro Tranquilidade do coração, do monge beneditino alemão Anselm Grün, conta a história de um homem que era tão infeliz com seus próprios passos que resolveu deixá-los para trás. Disse a si mesmo “Vou simplesmente fugir deles”. Então, levantou-se, pôs-se de pé e começou a correr, mas toda vez que levantava o pé e dava um passo, sua sombra o seguia sem esforço algum. Voltou a dizer para si mesmo “Preciso correr mais depressa”, então, correu cada vez mais rápido, até cair morto. Se tivesse, simplesmente, parado à sombra de uma árvore teria se livrado da sua sombra. Se tivesse se sentado, não dado mais nenhum passo, acalmaria sua alma, pensaria no caminho que teria que percorrer e planejaria melhor como fazer para chegar a seu destino.

Neste mês de janeiro, que nem começou direito, continuamos correndo para lá e para cá. Aceleramos nossos passos cada vez mais, mesmo em meio à pandemia que tentou nos desacelerar em 2020 e até conseguiu por alguns meses. Muitas vezes, queremos que as coisas voltem ao normal. Ainda insistimos em fugir de Deus, que nos ama infinitamente, como fizeram Adão e Eva no livro do Gênesis. Não paramos para descansar nossa alma à sombra das suas asas, nem refrescamos nossos pés nas águas correntes que jorram do seu coração misericordioso. Continuamos correndo de nossa sombra. Assim, ficará muito difícil termos paz e alegria para nós e para nossas famílias, como diz a canção de fim de ano.

A Bíblia Sagrada nos convida a uma mudança de paradigma. Precisamos confiar em Deus, deixar que Ele cuide de nós, como nos diz sua Palavra: “Tu que habitas sob a proteção do Altíssimo, que moras à sombra do Onipotente, dize ao Senhor: ‘Sois meu refúgio e minha cidadela, meu Deus, em quem eu confio’” (Sal 91,1.2). É Ele quem te livrará do laço do caçador, e da peste perniciosa. Ele te cobrirá com suas plumas, sob suas asas encontrarás refúgio. Sua fidelidade te será um escudo de proteção.

Nenhum mal te atingirá, nenhum flagelo chegará à tua tenda, porque aos seus anjos Ele mandou que te guardem em todos os teus caminhos. Eles te sustentarão em suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra” (Sl 90,1-4.10-12).

Não busquemos a felicidade nas coisas fúteis e inúteis que nos são apresentadas, como iscas, para nos fazer correr de nós. Pelo contrário, vamos beber na fonte da verdadeira felicidade, que é Deus. Se não permanecermos sob sua proteção, este ano não será tão diferente daquele que deixamos para trás há alguns dias atrás. “(…) como a galinha reúne seus pintinhos debaixo de suas asas (…)” (Mt 23,37), deixemos o Senhor cuidar de cada um de nós neste dia e nos outros que hão de vir, até cantarmos juntos em dezembro “Adeus, ano velho! Feliz ano novo!”.

Pe. Agnaldo José
Fonte: www.revistaavemaria.com.br


Artigos Recentes