TEMPO DE ESPERANÇAR

Muita gente não sabe, mas esperança é também verbo: “esperançar”, verbo transitivo direto e pronominal. Esperançar significa levantar-se e ir atrás, agir, construir alternativas e soluções diante dos imprevistos, levar adiante uma ideia, um projeto ou um sonho que seja. Em outras palavras, esperançar significa nunca desistir, mesmo que os obstáculos e as surpresas sejam assustadoras, como as que tivemos no ano de 2020, com a pandemia do coronavírus, que chegou para ceifar a esperança de centenas de milhares de pessoas. Assim, esperançar é também agir, buscar, ou, como diz o apóstolo Paulo , “esperar contra toda humana esperança” (Rm 4,18), que significa firmar-se na esperança e na fé mesmo que coisas inusitadas aconteçam e elas sempre acontecem. Desse modo, esperançar é o contrário de esperar, apesar de muitos associarem esperança com o verbo esperar. Como diz Mário Sérgio Cortella, “É preciso esperançar, olhar e reagir a tudo aquilo que não tem saída”.

Eu me lembro de tudo isso porque quando chega janeiro a primeira coisa que passa pela nossa cabeça, seja enquanto indivíduo, família, comunidade ou sociedade, é planejar; planejar é sinal de esperança, do verbo “esperançar”. O planejamento nos dá certa segurança, embora não seja garantia de que tudo vai dar certo, mas é um procedimento importante.

O ano de 2020 nos pregou uma peça em relação aos planejamentos. Com a pandemia do novo coronavírus, todos os planejamentos foram por terra e percebemos quão vulneráveis nós somos, mesmo quando temos tudo traçado, planejado. Creio que essa pandemia nos deixou uma grande lição: não basta planejar, é preciso também confiar, esperançar e deixar espaço para a ação do Espírito Santo agir nos nossos planejamentos. Às vezes, nós nos tornamos tão técnicos e proativos que esquecemos que, por mais que nossos planos sejam sólidos, eles não nos dão total garantia de que tudo vai dar certo só porque planejamos.

Planejar é importante, mas é preciso também estar preparado para as surpresas que a vida nos apresenta e é aí que entra o verbo “esperançar”, que deve caminhar junto com o verbo “planejar”.

Não vamos, portanto, deixar de planejar, de desejar que o novo ano seja melhor do que aquele passou, de sonhar, mas vamos também, e sobretudo, esperançar. Surpresas acontecem e elas chegam quando menos esperamos, por isso, é bom ter esperança. Não sabemos nem como será o dia seguinte, quanto mais o ano seguinte! Tudo pode mudar num piscar de olhos. Portanto, não criemos muitas expectativas para o novo ano, mas tenhamos esperança. Procuremos ter planos, mas não nos esqueçamos de esperançar. Procuremos ensinar e viver isso com nossas famílias: a vida, mais que planejada, precisa ser esperançada.

Quem está esperançado lida melhor com os acontecimentos inesperados e desesperados. É isso que Jesus ensina com as parábolas que nos pedem vigilância. Das dez virgens da parábola (cf. Mt 25,1-13), cinco delas tinham juízo e planejaram a quantidade de azeite suficiente para as suas lamparinas, até a chegada do novo; as outras cinco eram imprevidentes, ou seja, sem juízo, e não pensaram nisso, não agiram com esperança e ficaram desesperadas quando voltaram e encontraram as portas fechadas. Elas foram privadas do banquete porque não souberam esperançar aquilo que era para ser esperançado. Família que sabe esperançar não é pega de surpresa quando acontecem coisas inesperadas.

Devemos estar, portanto, com “(…) os nossos rins cingidos e as nossas lâmpadas acesas (…)” (Lc 12,35), pois não sabemos o que vai acontecer amanhã ou neste ano. Quando estamos vigilantes, isto é, esperançados, os acontecimentos inesperados nos causam menos impacto e podemos ter mais equilíbrio para lidar com eles e encontrar a melhor solução.

Pe. José Carlos Pereira
Fonte: www.revistaavemaria.com.br


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