O DELÍRIO DA ONIPOTÊNCIA – Pe. João Paulo Ferreira Ielo

Na sexta-feira santa de 2020, todos contemplamos e adoramos a Cruz de nosso Senhor à distância, online, pois o vírus que assustava e matava, praticamente nos deixava inertes. Nesse dia, enquanto assistia pela televisão a celebração do Papa Francisco, ouvi o pregador da Casa Pontifícia afirmar que “o vírus nos despertou de nosso delírio de onipotência”! Lembrei-me do relato da torre de Babel, no qual as pessoas sedentas de fama e poder passaram a não se entender mais. É verdade! Depois de quantos milênios de história, depois de quantas conquistas, parece que voltamos à idade da pedra, parecendo que o inimigo é o outro, transparecendo que não aprimoramos nossa inteligência.

Alguém me disse que inteligência não é a mesma coisa que sabedoria, visto que é sábio quem sempre está disposto a aprender com os semelhantes, com a realidade e com as lições da história. Nascemos inteligentes, nascemos para ser livres e assim assumir responsabilidades na convivência com nossos semelhantes. Desde que o ser humano apareceu sobre a face da terra, está em constante evolução, aperfeiçoando seu aprendizado e atingindo níveis de excelência antes impensáveis. Nesta trajetória, ciência, inteligência e religião caminharam juntas. Quando resolveram separar estas três dimensões nascidas conosco, afirmando que sua convivência era incompatível, começaram as ruidosas loucuras. Fé sem inteligência gera fanatismo, inteligência sem fé cria pessoas extremamente arrogantes, ciência sem paixão torna-se um grande negócio.

Após um ano de lutas e batalhas acirradas contra um vírus mortal, cuja origem se desconhece e os efeitos arrasadores são parecidos com o dragão do Apocalipse, ainda encontramos pessoas que insistem em negar que exista uma coisa desse tipo; ainda vemos pessoas com certa formação universitária enveredando-se por um caminho semelhante ao ministro da informação de Hitler que mentia ao ponto de fazer as pessoas acreditar em sua mentira como se verdade fosse. Ainda hoje há pessoas que se prestam a mentir e enganar para não se despirem de sua arrogância e ilusão de onipotência a serviço de um destempero que só faz aumentar a insegurança por meio de ameaças veladas a quem pensa diferente do estabelecido e exaltando atitudes destrutivas como se fossem virtudes.

Ao invés de nossas lideranças se juntarem a favor da vida e do povo, fazem como uma disputa de “cabo de guerra”, criando um ambiente de hostilidades gratuitas e descontroladas, com o prejuízo unicamente creditado na conta dos pobres que não têm para onde correr, pois os que deveriam proteger o povo já o abandonaram colocando antes de seus encargos seus impróprios interesses grupais.

É triste ver como o ser humano, criado para fazer do planeta terra um grande jardim, o transformou numa bola de fogo, desperdiçando belezas e riquezas naturais para enriquecer uns poucos, desprezando as antigas tradições de povos indígenas, reduzindo a religião a um sistema de castigos e punições na clara intenção de “roubar” o lugar do todo poderoso através das redes de intrigas, ameaças e inimizades que deterioram o já combalido relacionamento humano que, graças ao bom Deus, ainda teima em ser fraterno.

Mas ainda não fomos vencidos; ainda temos uma estrada inteira para pavimentar com nossa esperança que deve fazer arder nosso coração e aquecer nosso cérebro. Não podemos deixar que pensem ou decidam por nós; não podemos ceder nossa herança de filhos de Deus a quem não o ama nem ama aos seus filhos e nossos irmãos. Nossa resposta não se dá por meio de atos ou ações violentas, mas sim a través da prática permanente e perseverante de ações que promovem o bem e fortalecem a fraternidade entre as pessoas que desejam vencer essa situação sufocante que passamos. Vencer o mal através da pratica sincera, inteligente e sábia do bem que aprendemos de Jesus Cristo que nos estimula a amar aos que desaprenderam de fazê-lo. Do alto da cruz, vem o ensinamento:- “Pai, perdoa-lhes, eles não sabem o que fazem”!

Pe. João Paulo Ferreira Ielo


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