Para que todos tenham vida!

         Há pouco mais de cento e trinta anos, o Papa Leão XIII publicava sua Carta Encíclica “Rerum Novarum”, ou mal traduzindo, “Das coisas novas” que iluminou a ação pastoral da Igreja no final do século dezenove colocando em pauta a situação e a vida dos operários que preocupavam sobremaneira o santo Padre.  Tal texto revela ainda hoje sua atualidade e importância visto que ela se torna um marco no Ensino Social da Igreja criando uma espécie de “compêndio” para o agir cristão, um modo de sistematizar o que Cristo ensinou nos Evangelhos e iluminar nossa prática pastoral evangelizadora e missionária.

         Somos vocacionados à fraternidade, nos ensina o Mestre quando afirma “todos sois irmãos” (cf. Mt 23,8) e por isso impelidos à misericórdia reciproca.

         Recentemente a ação, ou melhor, a atuação política de legisladores e governantes tem demonstrado a incapacidade de servir à coletividade por amor ao próximo. Se notamos bem, ainda há alguns idealistas e bem intencionados que imprimem um jeito diferente de fazer política, seguindo mais a consciência que as   conveniências.

         Por muitas décadas recitamos como um mantra aquele provérbio que diz “política, futebol e religião, não se discute” e, não entabulando diálogo a respeito desses assuntos, muitas coisas foram repetidamente varridas para debaixo do tapete e a sala da sociedade criou barreiras quase intransponíveis ao tocar determinados assuntos. Daí o surgimento de fanatismos sem inteligência, intolerantes, excessivamente violentos alimentados a ódio descontrolado.

         Os cristãos são convidados a ver a Política como a ciência que estuda a vida e o desenvolvimento da “polis”, a cidade que abriga e cuida de seus habitantes. Política deve servir como instrumento para realizar o “bem comum” e fazer a sociedade crescer social, cultural e economicamente. É necessário, então, saber o que significam “bem” e “comum” a fim de enxergar a política como vem descrita nos diversos documentos da Doutrina Social da Igreja e tornar a política um “serviço aos outros”, não um “servir-se dos outros”.

         Quando alguém se entitula  “cristão” ao apresentar-se como candidato, a vida e as atitudes desse ou dessa precisam confirmar que “cristão” não é um título nem um rótulo mas é o que define a vida e o ser da pessoa. Não se pode ser “cristão só de nome”, afirmava santo Inácio de Antioquia. Cristão segue a Cristo, obedece a Cristo e, portanto, pratica o que Cristo ensina, como “não matar” não é somente se declarar contra o aborto, mas ser e agir de maneira contrária a tudo o que desrespeite e atente contra a vida e dignidade humanas e não matar quer dizer não matar nem feto, nem criança nem mulher e nem ninguém.

         O cristão na política se posiciona a partir da ética propugnada pelo Evangelho em que o amor aos outros é o imperativo a ser vivido em todas as atividades dos discípulos de Cristo e não em algumas. Ao chamar-se “cristão” devemos nos lembrar que o “lava-pés” não foi uma cena de teatro e sim o resumo de uma história que tem seu desfecho na cruz. Cristãos na política não abrem mão da fé nem da Igreja e muito menos do Evangelho. Seu líder é Jesus Cristo que não o substituem por qualquer “mito” de ocasião.

         Em nossos dias, não falar sobre a Política pode ser um pecado de “omissão” pois ainda há “ricos cada vez mais ricos às custas de pobres cada vez mais miseráveis”. Além de amar os que sofrem, é preciso chegar às causas do sofrimento, do empobrecimento, da fome crescente; não é justo nem humano que alimento seja mais caro que bebida e cigarro; não é correto faltar remédio e vacina para os mais pobres enquanto poucos vão se vacinar nos exterior.

         Enfim, que o discurso de “servir o próximo” seja programa de vida e não proposta de gente que vive falando conversa mole para adormecer bezerro. Que, ao tratarmos da Política e dos políticos levemos em consideração o princípio da “consciência e não da conivência”.

Pe. João Paulo Ferreira Ielo


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