O TERMO LITURGIA

1.1 O termo liturgia. Sua concepção no grego, na Escritura e nos Padres da Igreja

Quando se fala de liturgia ou pastoral litúrgica sempre pensamos a respeito da organização das celebrações realizadas pelas nossas paróquias e comunidades, assim essa pastoral contempla: a preparação dos comentários, escolha dos cantos, a ornamentação do espaço celebrativo, as vestes utilizadas pelos ministros, os livros utilizados, entre outros elementos. Mas será que a liturgia é apenas isso? Todos estes elementos compõe a Liturgia em um dado externo, algo bem material e palpável. Mas, a Liturgia é algo muito maior do que apenas estes pontos. Então, devemos nos perguntar: o que de fato é a Liturgia, da qual tanto se fala dentro da Igreja?

Para entender o que vem a ser a Liturgia busquemos antes de tudo compreender a origem desta palavra. A palavra “liturgia” nem sempre teve o mesmo significado, ou seja, cada povo, cultura ou época histórica atribuíu um sentido próprio a este verbete. Sua origem remonta do grego clássico, sendo a junção de dois termos: láos/léos (povo) e ergon (obra), o que seria compreendido como um serviço prestado ao povo, ou algo realizado pensado diretamente no bem comum de uma determinada comunidade.

No período helenístico (séc. IV-II a.C), quando o grego ganha força no mundo conhecido, o serviço litúrgico poderiam ser muita coisa, como: apresentação do coro em um teatro, providenciar armas para um navio, acolher as pessoas no vilarejo por causa de uma festa que aconteceria. Para ajudar a compreender melhor o que era liturgia na mentalidade de um grego podemos olhar para a nossa atual sociedade e tentar elencar alguns trabalhos realizados para o bem de toda a comunidade: os políticos, os funcionários responsáveis pela manutenção da cidade (lixeiros, jardineiros, policiais, bombeiros), aos que cabem a formação das novas gerações (pais, professores, educadores), ainda podemos pensar em tantos que de modo voluntário procuram fazer com que a atual sociedade consiga superar as desigualdades e assim restituir um pouco de dignidade a tantos homens e mulheres (voluntários auxiliam em desastres ecológicos, médicos que deixam suas casas para auxiliar em outros países).

Tudo isto é liturgia, mas não a Liturgia segundo a nossa fé cristã. Vamos aprofundar na compreensão deste termo utilizando a Sagrada Escritura.

O termo, que estamos estudando, aparece pela primeira vez na Bíblia entre os séculos III e I a.C., quando os livros do Antigo Testamento são traduzidos do hebraico e aramaico para o grego, na versão que veio a ser conhecida como Setenta do Antigo Testamento. O uso da palavra liturgia aprece cerca de 150 vezes, sempre utilizada para indicar o serviço cultual-ritual realizado pelos sacerdotes judeus e levitas no templo de Jerusalém. Traz consigo sempre uma visão bem legalista e ritualista das cerimônias religiosas, sempre pautadas pela observância e obrigação de se realizar tudo o que está prescrito na Lei Mosaica.

Ao procurar esta palavra nos livros do Novo Testamento observamos que existe uma redução muito radical na forma com a qual é utilizada, em cerca de apenas 15 passagens é que encontraremos os evangelistas e os escritos apostólicos (cartas paulinas, católicas e literatura joanina) utilizando esta palavra. Vale ressaltar que esporadicamente  elas serão traduzidas como ‘liturgia’ nas Bíblias editadas em língua portuguesa. Nem sempre o termo estará relacionado com alguma forma cultual, notamos que os autores do Novo Testamento as vezes utilizam tendo em mente a ideia de um serviço realizado por um bem público, como a coleta realizada em favor da Igreja em Jerusalém (2Cor 9,12); em alguns casos servirá para falar a respeito serviço ritual-sacerdotal no Templo de Jerusalém, conforme estipulado pelo Antigo Testamento (Lc 1,23; Hb 9,21) e até mesmo para criticar essa forma legalista de cultuar a Deus própria da Lei Mosaica (Hb 10,11); em alguns momentos servirá para mostrar o encontro de oração organizado pelos cristãos (At 13,2); contudo, na maior parte dos textos os autores sagrados dirão que Jesus Cristo é  realizador e consumador da Liturgia perfeita (Fl 2,7.30; Hb 8,2.6), responsável por ligar o ser humano a Deus.

A diminuição no uso da palavra liturgia, como se percebe nos textos neotestamentários, se deve ao fato de que Jesus Cristo procura romper com a concepção cultual ritualista-legalista do culto da Primeira Aliança. Portanto, o modo de cultuar a Deus dos cristãos não deve se assemelhar mais à exigência de cumprir legalmente cada pormenor prescrito pela lei, uma vez que ela estava longe de comunicar algo ao coração dos homens, o modo litúrgico cristão deverá estar impregnado da necessidade de a pessoa ser capaz de encontrar Deus que quer comunicar-se ao coração humano.

Dentre tantas passagens bíblicas dois textos do Novo Testamento (Jo 4,20-24; Rm 12,1) podem nos ajudar a compreender qual é a verdadeira forma de culto que os cristãos devem assumir.

A primeira passagem está no Evangelho de João (Jo 4,20-24), este relato joanino é responsável por apresentar o protótipo cúltico segundo o desejo de Jesus Cristo. O modo de cultuar a Deus quebra com apegos aos paradigmas externos que não colaboram com a transcendência do humano. Olhando para o modus operandi da adoração realizada pelo judaísmo, válida em sua essência e não em sua concretização, observa-se um apego exagerado a elementos que ao invés de aproximar os homens de Deus, na verdade impediam o amadurecimento humano e espiritual.

Jesus afirma: “os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade; pois são estes os adoradores que o Pai procura” (Jo 4,23a). Desta forma “o verdadeiro culto a Deus suprimirá o culto samaritano e judaico, […] que se dará não mais a um Deus distante, mas ao Pai, unido ao homem por relação pessoal” (Juan Mateos), nesta perspectiva observamos que o imperativo é a pessoalidade e proximidade que existe entre o divino e a criatura, entre Deus e o ser humano.

O segundo texto encontra-se na Epístola de São Paulo aos Romanos: “Eu vos exorto, irmãos, pela misericórdia de Deus, a que oferecerdes vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus: este é o vosso verdadeiro culto” (Rm 12,1), neste trecho o Apóstolo não se preocupa mais com uma dimensão de sacrifício de animais, como era vigente no Templo de Jerusalém, mas sim e, sobretudo nos sacrifícios pessoais que cada pessoa pode oferecer, como pode de fazer através da doação da vida se prolongue ação sacerdotal de Cristo no meio dos homens, pelos séculos que haverá de transcorrer.

A intenção do escrito está em mostrar que o ser humano é chamado a uma ‘liturgia’, mas que não se manifesta puramente em modo ritualmente e assim independe de local, sacerdote, ou animal a ser sacrificado. A ideia é confirmar que “na vida mundana de cada dia que eles (os cristãos) são, ao mesmo tempo, vítimas e sacerdotes: uma liturgia ligada à profanidade da vida desprovida de ritos particulares e de gestos sagrados” (Giuseppe Barbaglio), ou seja, o culto celebrado pela e em comunidade deve fazer com que o cristão assuma para si uma conduta existencial em sentido cultual, onde ele se oferece, assim como Jesus Cristo ofereceu-se na cruz, para que os seus irmãos e irmãs possam encontrar vida em abundância.

Com estes dois textos bíblicos temos o sentido do culto assumido pela comunidade cristã: um culto que antes de ser algo exterior busca transformar o interior de cada homem e mulher, não os deixando iguais ao que eram e assim assumir uma condição homem e mulher novos. A maior preocupação dos autores do Novo Testamento centra-se no amadurecimento da pessoa, embora seja manifesto em sua ação exterior, está intimamente ligado com a introspecção daquele que se coloca em oração, ou seja, a interioridade vale mais do que a repetição ritual.

Percebemos, porém, que na Igreja pós-apostólica ocorre a valorização do verbete liturgia, como se comprova a crescente utilização em escritos como a Didaquê, I Carta de Clemente aos Coríntios, nos padres gregos e em Santo Agostinho. Isto se deve ao fato de que o culto judaico não ocorria mais por causa da destruição do Templo em Jerusalém (ca. 70 d.C.). Normalmente será utilizado para significar o sentido cultual e eucarístico que a vida cristã assume pouco a pouco como polo gravitacional nas mais diversas comunidades.

No Oriente grego cristão essa palavra será valorizada de modo mais amplo como um modo de indicar a ação sagrada que acontece em modo ritual, assim se fala de liturgias próprias e elaboradas por em um determinado local ou por algum santo, como por exemplo: Liturgia de São João Crisóstomo, Liturgia de São Basílio. No Ocidente Cristão este termo cairá em uso, retornando apenas no século XVI, as comunidades cristãs ligadas a tradição cultual do Ocidente irão preferir outros termos para falar do modo de celebrar a fé, como: ofício divino, celebração santa, obra de Deus, entre outros.

De qualquer forma o cristão, tanto no Oriente, quanto no Ocidente entende a Liturgia, o modo de prestar veneração a Deus, antes de tudo como um culto de adoração, que está associado puramente às normas e regras, mas própria vida do fiel, e que também é responsável por alimentar e formar espiritualmente cada pessoa para que se possa viver de modo cristão no mundo.

 

Pe. Rogério Ramazotti Calelo
Mestre de Cerimônias
Assessor da Comissão Diocesana de Liturgia
“O bom pastor dá a sua vida
pelas suas ovelhas” Jo 10,11

 

Para aprofundar no assunto

AUGE, Matias. Liturgia: história, celebração teologia e espiritualidade. 4ª ed. Trad. Comercindo B. Dalla Costa. São Paulo: Ave-Maria, 2013.

BIBLÍA SAGRADA. Tradução oficial da CNBB.

CONCÍLIO VATICANO II. Sacrosanctum Concilium. Disponível em:
http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19631204_sacrosanctum-concilium_po.html.

FLORES, Juan Javier. Introdução à teologia litúrgica. Trad. Antonio Efro Feltrin. São Paulo: Paulinas, 2006. (Coleção liturgia fundamental).


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